Comunidade da UnB clama pelo fim do machismo e por segurança no campus

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A multidão que tomou o Teatro de Arena da Universidade de Brasília nesta segunda-feira (14), formada por estudantes, técnico-administrativos e professores, mostrou a indignação da comunidade universitária com a falta de políticas da administração superior da universidade para combater o machismo e dar segurança a quem diariamente frequenta o campus Darcy Ribeiro. Com cartazes e falas contundentes, eles e elas homenagearam a aluna Louise Ribeiro, 20, assassinada no último dia 10 na universidade, em mais um caso de feminicídio – assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher.

“Como professores, temos a obrigação de levar esse debate para as salas de aula. Como administração, temos que aumentar o efetivo de segurança, aumentar a capacitação, aumentar a conexão da segurança com as demandas da comunidade acadêmica”, disse o reitor da UnB, Ivan Camargo. A fala do dirigente máximo da universidade foi interrompida pelo coro puxado pelos participantes do ato que dizia: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”. O grito de indignação que calou Camargo reflete o repúdio da comunidade universitária a uma política de segurança que possibilite a intervenção externa e repressão da Polícia Militar, ferindo a autonomia da Universidade de Brasília para gerir suas questões. Para a comunidade, mais segurança não significa polícia dentro do campus.

Como representante dos servidores técnico-administrativos da UnB, o coordenador geral do Sintfub, Mauro Mendes, lamentou o assassinato brutal de Louise e refutou qualquer análise que observe o caso como crime passional. “Este é um caso claro de feminicídio. Os sonhos de mais uma mulher foram interrompidos por essa doença social que é o machismo. Temos que dar um basta nisso, e a UnB deve ser protagonista. É ainda essencial que a administração superior dê segurança à comunidade universitária da UnB. E não é colocando a polícia aqui que resolveremos isso. Temos de ter uma política de segurança digna, humana, permanente e responsável”, analisa o dirigente sindical.

Como alternativa para cessar os casos de violência de gênero na UnB e em outras universidades públicas e particulares, a secretária de Estado da Segurança Pública e da Paz Social do DF, Márcia de Alencar Araújo, sugeriu a reativação do Conselho Comunitário de Segurança da UnB em parceria com outras instituições de ensino.

Para a deputada federal Érika Kokay (PT-DF), “é preciso que a UnB tenha um Plano de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e que dê a ele a centralidade que o momento exige”. “Essa (a violência contra a mulher) não é uma discussão menor, é uma discussão que resgata a nossa capacidade de ver o outro enquanto outro, a nossa capacidade de nos construirmos enquanto sujeito e, portanto, uma sociedade pautada em uma cultura de paz”, discursou a parlamentar.

A representante da ONU Mulheres, Joana Chagas, lembrou que a morte de Joana não é “um caso isolado”. “São 15 mulheres assassinadas por dia no Brasil: uma mulher a cada duas horas. O Brasil é o 5º país com o maior número de homicídio de mulheres. Isso só demonstra que é uma questão estrutural, de uma sociedade patriarcal, e que só dando visibilidade a este tipo de violência será possível preveni-la e enfrentá-la”, avaliou. Segundo ela, as universidades podem ser protagonistas na luta contra o feminicídio. “Se a sociedade e a universidade como parte da sociedade tiver os mecanismos para enfrentar a violência contra as mulheres, promover a igualdade de gênero, teremos a forma mais efetiva de prevenirmos esse tipo de violência. É muito simbólico que este feminicídio tenha ocorrido dentro de uma instituição de ensino pública, pois a educação é o nosso meio de melhor prevenir este tipo de violência”, disse.

De acordo com dados do Mapa da Violência Contra a Mulher, no ano de 2015, foram registradas 750 mil denúncias de caso de violência deste tipo. “A gente teve a promulgação da lei do feminicídio no ano passado, mas não houve recuo desse tipo de violência, não houve mudança da mentalidade. É nisso que a gente tem que trabalhar”, avalia a representante da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Gabriela Ferraz.

Para o vice-presidente da ADUnB – organização que representa os docentes da UnB –, Virgílio Caixeta, “não há nada que possa justificar o ato hediondo, o gesto covarde, a atitude monstruosa que foi feita contra uma pessoa, uma mulher, uma estudante da Universidade de Brasília”. “Neste sentido, eu como pai de uma menina, gostaria de pedir principalmente à administração superior que seja instituído na UnB o dia 10 de março como o dia da lembrança da oposição a todo tipo de discriminação, de violência, de ódio”, pediu o professor.

“A dor que estamos sentindo é imensurável. Sabemos que muitas pessoas por todo mundo já sentiram essa dor, uma dor que ninguém deveria sentir. Não é apenas uma dor de perda, é também uma dor de incredulidade, de indignação. A morte por violência abrange muitos outros sentimentos: raiva e medo são um deles, além do pesar que vem com qualquer perda”, discursou emocionada durante o ato desta segunda a estudante Bruna Lisboa, amiga de Louise.

Fonte: Sintfub

admin

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